História sucinta das línguas portuguesa e espanhola

 

Ambas as línguas tiveram origem na Península Ibérica, região onde hoje ficam Portugal e Espanha. Não é estranho, assim, que as duas tenham uma história, em muitos aspectos, bastante parecida. Explicar o desenvolvimento dessas línguas é uma tarefa muito grande que ultrapassa os limites dos objetivos deste texto. Minha intenção é dar uma explicação geral para que meus alunos tenham uma idéia de quais foram as bases para o surgimento do português e do espanhol e de quais foram as influências sofridas ao longo do tempo.

 

No século XIX, o filólogo alemão Franz Bopp pesquisou diversas línguas européias e demonstrou que elas provavelmente se originaram numa única língua, o indo-europeu. Essa língua comum fracionou-se em diversos ramos. Um deles é o itálico, ao qual pertence o latim, língua falada na antiga Roma.

 

Com o aumento constante do Império Romano, os exércitos de Roma se espalharam por grande parte da Europa, levando seus costumes e sua língua: o chamado latim vulgar. Embora os romanos tenham imposto sua língua aos povos conquistados, não puderam impedir que o latim vulgar sofresse modificações, sobretudo na fonética e no léxico, nas diversas regiões ocupadas.

 

Na Península Ibérica, os romanos encontraram outros povos que já lá viviam, como iberos, celtas, bascos, gregos, fenícios e cartagineses. Influências dessas línguas pré-românicas podem ser encontradas nas atuais línguas portuguesa e espanhola. Em português, são de origem celta, por exemplo:

 

  • no léxico: palavras como cavalo (de caballus), carro (de carrus) ou manteiga (de mantica)
  • na fonética: a troca de algumas consoantes (de lupu para lobo; de aqua para água) e a perda da vogal e após l, n, r (de male para mal; de bene para bem; de mare para mar), entre outras.

Em espanhol, temos: caballo, carro, mantequilla, lobo, agua, mal, bien, mar. Da fusão entre os romanos e os povos conquistados foram surgindo diferentes dialetos.

 

A partir do século V,  povos germânicos (como vândalos, alanos, visigodos, alamanos, suevos etc.) penetraram nos territórios romanos, influenciando também a língua local. Essa entrada de povos germânicos em territórios romanos ocorreu, na grande maioria dos casos, na forma de invasões. Assim, temos hoje em português termos como guerra, bando, trégua, dardo, galope etc., de origem germânica. Da mesma forma, encontramos em espanhol as palavras guerra, bando, tregua, dardo, galope etc.

 

No caso da Península Ibérica, temos ainda que considerar a ocupação árabe, que ocorreu durante sete séculos (de 711 a 1492). Palavras em português como alface, almofada, arroz, algodão, azeitona, azulejo, girafa, javali, arroba, quintal etc. são de origem árabe. Em espanhol, temos, por exemplo: almohada, algodón, aduana, azulejo, alfombra, alambique, fulano, ojalá etc.

 

Com a chegada de povos germânicos e árabes, os dialetos que haviam sido formados quando da ocupação romana sofreram novas transformações e os chamados romanços medievais foram surgindo. Um deles era o galego-português, língua falada nas atuais regiões de Portugal e Galiza. Outros romanços eram o castelhano, o catalão, o navarro-aragonês e o astur-leonês, falados respectivamente nas regiões de Castela, Catalunha, Aragão e Navarra, Leão e Astúrias. Alguns desses romanços se impuseram mais, outros menos.

 

Os limites atuais de Portugal foram fixados em 1250, com a reconquista do Algarve do domínio árabe (o restante da península só foi reconquistado pelos cristãos em 1492, com a tomada de Granada). A língua falada nessa região era, até o século XIV, o galego-português, mas, a partir daí, foi-se delineando cada vez mais a atual língua portuguesa.

 

Da mesma forma, no restante da península os romanços medievais foram evoluindo. Note-se que até hoje são faladas na Espanha diferentes línguas. O castelhano é a língua oficial, mas são reconhecidos também o catalão, o galego e o basco (euskera), que é uma língua com raízes ainda nos tempos pré-românicos. No século XIII, Alfonso X, rei de Castela e Leão, deu o primeiro o passo para converter o castelhano na língua oficial do reino: ordenou a composição de grandes obras sobre História, Astronomia e Direito nessa língua.

 

Com as descobertas do século XV, tanto o português como o castelhano foram levados a outros cantos do mundo, como África, Ásia e América. Naturalmente, as duas línguas sofreram influências de línguas naturais das regiões descobertas, como tupi, guarani, quíchua, aruaque, náuatle, e várias línguas da África, entre outras. Foram incorporados muitos vocábulos que designavam realidades desconhecidas na Europa até então. Em espanhol, são palavras como pampa, patata, cóndor, alpaca, cacique, colibri, caníbal, maiz, chocolate, tomate, cacao, jaguar, tucán etc. Em português, casos muito parecidos: pampa, batata, condor, alpaca, cacique, colibri, canibal, chocolate, tomate, cacao, jaguar, tucano, abacaxi etc.

 

Das línguas africanas, a influência no vocabulário do português é expressiva: farofa, fubá, zumbi, muamba, Iemanjá, vatapá, caçula, quiabo, marimbondo, caximbo, quilombo, moleque, farra, chimpanzé, banana etc.

 

Línguas asiáticas também deixaram suas marcas. Em português, encontramos, por exemplo, a palavra chá, de origem chinesa. Do malaiala vêm, por exemplo, em português, as palavras jangada e manga. Em espanhol, jangada e mango.

 

Hoje em dia, as duas línguas continuam em evolução, adaptando-se à realidade de contínua mudança. Inúmeras palavras ou expressões provindas, por exemplo, do meio da informática são incorporadas do inglês. Em português, temos: PC, modem, mouse, clicar, deletar etc. e, em espanhol, PC, módem etc.

 

O português é hoje falado em Portugal, Madeira, Açores, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Macao, Timor Leste, Goa, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. É também uma língua de importância em Andorra, Luxemburgo, Namíbia e África do Sul, entre outros países.

 

O espanhol é hoje falado na Espanha, nas Ilhas Canárias, nas Ilhas Baleares, em Ceuta, Melilha, países da América Latina (Guinea Equatorial, República Dominicana, Equador, El Salvador, Venezuela, México, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Colômbia, Panamá, Nicarágua, Cuba, Bolívia, Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Peru) e em uma grande região dos Estados Unidos. É uma língua de importância em Andorra, Belize, Marrocos, Filipinas, Porto Rico, Trinidade e Tobago, entre outros países.

 

Em conjunto, as duas línguas são faladas como línguas maternas ou segundas línguas por um total de cerca de 730 milhões de pessoas no mundo inteiro.

 

 

Fontes

 

Livros

  • Hauy, Amini Boainain. História da língua portuguesa – séculos. XII, XIII, e XIV. São Paulo, Ed. Ática, 1989, vol.1.
  • Paiva, Dulce de Faria. História da língua portuguesa – século. XV e meados do século XVI. São Paulo, Ed. Ática, 1988, vol. 2.
  • Spina, Segismundo. História da língua portuguesa – segunda metade do século. XVI e século XVII. São Paulo, Ed. Ática, 1987, vol. 3.
  • Pinto, Rolando Morel. História da língua portuguesa – século. XVIII. São Paulo, Ed. Ática, 1988, vol. 4.
  • Martins, Nilce Sant’Anna. História da língua portuguesa – século. XIX. São Paulo, Ed. Ática, 1988, vol. 5.
  • Pinto, Edith Pimentel. História da língua portuguesa – séculos. XX. São Paulo, Ed. Ática, 1988, vol. 6.
  • Lapesa, Rafael. Historia de la lengua española. Madrid, Gredos, 1983.
  • Diez, Miguel; Morales, Francisco; Sabin, Angel. Las lenguas de España. Instituto Nacional de Ciencias de la Educacion, Madrid, 1977.
  • Pidal, R. Menéndez. Manual de Gramatica Historica Espanhola. Madrid, Espasa-Calpe S.A.,1980.

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